Famílias do 'Minha casa minha vida' ganham novos apartamentos

Foto: Extra

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“Aqui vai ficar o sofá, e aqui a TV. Vou trazer também alguns panos para decorar a cozinha. Gosto bem colorida”, diz a dona de casa Denise*, de 33 anos, apontando, de chave em punho, o apartamento vazio.

Apesar de ser uma beneficiária do programa “Minha casa, minha vida”, nos últimos dois anos, ela morou de favor numa casa de parentes em Cabuçu, na Baixada Fluminense. Em outubro de 2014, sob a mira de um fuzil, a dona de casa foi obrigada a fugir, com marido e filho à tiracolo, do Residencial Haroldo de Andrade, em Barros Filho, Zona Norte.

As histórias de Denise e de mais 79 famílias que foram expulsas do condomínio por traficantes foram contadas em março de 2014 no primeiro capítulo da série “Minha casa, minha sina”, publicada pelo EXTRA. Na ocasião, bandidos da favela Final Feliz, atrás do conjunto, ordenaram que moradores oriundos de locais ocupados por uma facção rival deixassem o condomínio. Nos últimos dois anos, o EXTRA acompanhou a luta dessas pessoas por um novo lar. Na última terça-feira, 30 dessas famílias foram realocadas no programa federal, assinaram contratos com a Caixa Econômica Federal e receberam as chaves de seus novos imóveis.

No mesmo dia, seis mulheres — chefes de suas famílias — foram visitar seus apartamentos, localizados em dois conjuntos habitacionais em Santa Cruz, na Zona Oeste. Na primeira visita aos novos lares, ainda vazios, elas relembraram suas trajetórias. Após ter que sair de Barros Filho com seu filho de 1 ano, a caixa de supermercado Giovana*, de 23, passou a alugar um puxadinho na favela do Mandela, na Zona Norte — onde, segundo ela mesmo, “a polícia entra toda hora”. Já a auxiliar de serviços gerais Rebecca*, de 58, voltou para uma comunidade, em Bonsucesso, também na Zona Norte, que surgiu da invasão de um terreno que fica embaixo da Linha Amarela.

— Em Barros Filho, dormia com dois sofás na frente da porta. Não sei por quê fazia isso, não ia adiantar nada se os bandidos de fuzil tentassem entrar lá. Agora, espero ter tranquilidade para criar meu filho — conta Giovana, sentada no chão de cerâmica da sala de sua nova casa.

Mudança na lei possibilitou realocação

Da expulsão de Barros Filho até o recebimento de um novo imóvel, o périplo dessas famílias incluiu depoimentos em delegacias e inúmeras idas à Companhia Estadual de Habitação (Cehab), responsável pela realocação. Todos esses passos são exigências da nova lei do programa federal, publicada em setembro de 2015, que possibilita que moradores expulsos por criminosos de condomínios do “Minha casa, minha vida” possam receber novos imóveis.

A mudança na legislação começou a ser estudada após a publicação da série “Minha casa, minha sina”. Graças à colaboração dessas famílias, a Polícia Civil fez uma operação no Haroldo de Andrade, também em setembro de 2015, e prendeu cinco pessoas acusadas de expulsar moradores.

Apesar de os tempos de barricadas e fuzis terem ficado para trás, o medo persegue as mulheres. Na porta de seu apartamento, uma delas foi abordada por uma vizinha, que puxou conversa e quis saber de onde elas vieram.

— Viemos de outro condomínio. Não nos adaptamos — desconversou Denise*.

Após a visita, elas tiveram que voltar para suas famílias. As mudanças vão começar a ser feitas nessa semana. No retorno de Santa Cruz, pela Avenida Brasil, o grupo avistou os prédios do Haroldo de Andrade ao longe.

— Deus me livre, não piso nunca mais naquele lugar — suspira Giovana*.

Famílias beneficiadas

Segundo a Polícia Civil, ao todo, 44 famílias deram entrada no procedimento para receber um novo imóvel. Nem todas, entretanto, receberam as chaves. Alguns dos condomínios que abrigarão essas pessoas ainda não foram inaugurados.

Mesmo após a entrada da polícia no Haroldo de Andrade, o tráfico ainda dá as cartas no local. Depois da operação, traficantes ordenaram a retirada de placas de sinalização do conjunto, para dificultar investigações policiais.

Em março de 2015, o EXTRA revelou, durante a série “Minha casa, minha sina”, que todos os condomínios do “Minha casa, minha vida” destinados aos beneficiários mais pobres — a faixa 1 de financiamento — no município do Rio eram alvo da ação de grupos criminosos. Na ocasião, as reportagens revelaram que 18.834 famílias estavam submetidas a expulsões, reuniões de condomínio feitas por bandidos, bocas de fumo em apartamentos, interferência do tráfico no sorteio de moradores, espancamentos e homicídios.

*Todos os nomes que aparecem nesta reportagem são fictícios.

Via: Extra

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